#10 O Gran Finale
"A última crônica da primeira temporada do Caixa de Sapato. Que de um singela pergunta, surgem os mais distintos pensamentos sobre quem eu sou e o que é a beleza".
“Todo passado contado é melhor que o passado vivido”. Bom, essa frase não é minha. Lembro de ouvi-la em algum lugar. Mas tem tanto sentido! É muito mais interessante contar uma história e poder colocar nela enfeites e entonações que as tornem muito melhor do que realmente aconteceram. Contar histórias é criar imagens na cabeça do outro. Diferente de um filme, em que todos veem a mesma tela, no contar a gente estimula a imaginação alheia a entender o mundo a partir da gente. E nós, muito jovens, temos pouquíssimo passado construído, vivido, mas tem lembranças. O passado, no fim das contas, é o presente. Estamos vivendo o presente para que possa existir passado.
Certo dia uma amiga veio me perguntar se ela é bonita. Bom, não tem pergunta mais difícil e ao mesmo tempo fácil do que essa. Mas ela é injusta. Injusta pra quem pergunta, principalmente. Todo mundo já parou para pensar nessa questão em algum momento da vida. Se achar ou não bonito, inteligente, legal, atraente. Faz parte da constituição da autoestima, que consequentemente é exercida para que seja possível se relacionar com as outras pessoas, com o mundo, mas principalmente em compreender que eu sou eu, não o fulano. Tudo isso pode parecer papo de psicologia, talvez seja, mas como não sou psicólogo, penso em tudo isso como alguém que observa as coisas. E tenta criar alguma opinião nos detalhes. Ser bonito ou bonita, no caso da conversa com a minha amiga, me parece ser uma pergunta mais profunda do que é, apesar de simples e direta. A beleza é abstrata. Talvez ela nem exista como forma, mas como sentimento. Sensação. A beleza pode ser qualquer coisa, viva ou não viva, que causa algo entre o êxtase e a dúvida. Um quadro, uma música, um lugar, uma pessoa, um cheiro. Tudo pode ser belo. Uma lembrança pode ser bela. E é algo que não se toca. Uma cena de teatro, de filme. Uma filosofia ou poesia, carrega a beleza única porque justamente não toca a todos. Não precisa e nunca precisou ser totalmente compreendida e nem consensual. Ela é para quem tem que ser. Se nutre daquele ou daquela que se abre para àquilo. Aquilo qualquer coisa. Ao segundo que se entrega a coisa. A beleza humana, em sua estética corporal, me parece superficial quando pensamos nisso tudo. Não é de negar que sentimos atração, podemos inclusive ter certos gostos específicos para um tipo mais do que outro, o que na realidade deveríamos nos questionar sempre. Porque, no final das contas, ela diz muito pouco sobre nós. O corpo foi feito de jeito que é pra gente sobreviver na superfície terrestre e continuar, biologicamente ou não, a ser humanos e procriar, dando continuidade a existência da espécie. Quando me perguntam: " eu sou bonita?" Instintivamente eu tenho duas respostas. A primeira é: sim. Porque de fato é a verdade. Dentro e fora dos padrões sociais, há aspectos dos dois lugares que tornam a pessoa bonita. Dentro a ideia da carne, da sexualidade, da estética, da moda e da lista de coisas que, socialmente, faz uma pessoa ser bonita. Mas ao mesmo tempo, a segunda resposta diz respeito a injustiça na simplicidade da pergunta. Ser bonito ou bonita é só uma primeira camada de um tanto de outras, que fazem a primeira ser quase esquecível. Se você já se apaixonou por alguém que, no geral, as pessoas acham feia, talvez você entenda o que quero dizer. Vale pensar: o que não gosto em mim? O que mudaria? O que me deixa feliz? Vale a pena mudar? Vale a pena deixar esse pedaço que sou e transformar aquilo que é meu, para outro? Se sim, vá em frente. Se não, boa sorte. A gente tenta o tempo todo ser compreendido e consensualmente bonito e todos os outros adjetivos o tempo todo. E qualquer coisa que seja terminantemente completa, intacta, cansa.

Não existe resposta certa. Não existe fórmula que tornem as coisas mais fáceis e indolores. A gente vai se achar uma merda muitos dias da vida. Se achar bonito ou bonita, ajuda a lidar com uma realidade que possa ser mais difícil ou desafios chatos de se lidar. Se há coisas que podemos fazer para tratar da carcaça, aos que ligam para isso, que seja feito.
Há uma pessoa que acompanho que tem obesidade mórbida e algumas doenças de coração e diabetes. Toma muitos medicamentos todos os dias. Ele trabalha com gastronomia e, segundo os médicos, ele deveria parar de comer muitos alimentos e preparações que, na sua vida, são quase cotidianos. Mas ele não para. Talvez ele seja o que a sociedade chama de uma pessoa feia, muito feia. Mas ele não liga. Ele continua comendo tudo o que gosta. Vê beleza nos alimentos. Se ele engorda por isso ou não, não importa. Não se trata de romantizar ou julgar pessoas gordas.
O lugar que quero chegar, é que esse homem sente amor, tesão, alegria e sente que está sendo ele mesmo quando toma um bom vinho, um Martini de verdade. Um prato bem-feito, com bons ingredientes, autêntico, é a verdade experiência de viver. Ser bem atendido, pagar um preço justo, é complexamente prazeroso. Ele paga por sexo. Talvez tenha um quadro leve de depressão. Mas ele continua comendo, trabalhando com comida, como um apaixonado. Como um apaixonado que ama aquilo que pode estar matando-o. Na rua, as pessoas o julgam pelo peso. Sempre. O tempo todo. Parece que tudo foi fabricado para que sua existência seja notada. Um banco pequeno demais, uma camisa que não serve. Há os que não ligam. E ele também não liga. Aprendeu a estar assim. Ele sabe que morrerá. Isso o entristece muito. Mas todos, sem exceção morrerão. E tem certeza de que muita gente viveu mais de cem anos sem sentir o prazer que ele sente. É um homem doente, também sabe disso. Fica na dúvida se essa condição fora uma escolha ou simplesmente chegou a essa vida, por traumas ocasionados pelos pais ou pela infância incrivelmente boa e feliz, apesar de tudo. Mas continua comendo. Porque há beleza na comida. Um homem feio com um belíssimo prato de comida. Ele ingere a refeição, e aquilo que está na sua frente, o belo, entra dentro dele pela boca. Dançando a língua, salivando e comprimindo os sabores, enquanto os dentes trabalham no desmanchar das células deliciosas. Um antropofágico fajuto. Tudo vira um, por alguém tempo. Até ele evacuar o que não serve ao corpo e absorver somente o prazer.
A vida talvez seja assim. Estamos o tempo todo tentando absorver o prazer das coisas que fazemos, das pessoas nas quais nos relacionamos, procurando ingerir a beleza. Inclusive o corpo do outro. Quando procuramos mais profundamente nossas mais fortes sensações, nos libertarmos para uma verdadeira plenitude, mesmo que rápida. Daí, o belo se torna mais um aspecto de discussão filosófica. Quando a gente goza de verdade, não tem pergunta, nem afirmação. Vira tudo junto.
O importante sempre é começar, difícil mesmo é ir até o fim. E falar sobre finais é algo que pode parecer complicado. Eu não acredito tanto em finais. Que tudo se acaba e some, evapora e esvai. Acredito na ausência de continuidade. Porque afinal, as coisas continuam lá, dentro da gente virando outra coisa. De certa forma, há acontecimentos que, embora na prática finalizados, no geral ainda continuam reverberando e se transformando. O término de um namoro ou a morte de alguém querida, não significa necessariamente um final, um deixar de existir, mas se torna um outro jeito de ver o espaço, o próprio corpo e a continuidade dos dias que nos levam a ser mais do que éramos antes, do que no dia anterior.
Escrito por: Luiz Gonzaga Souza (@luizgonzaga.s)



Comentários