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#8 Linha 1 – Azul

Foto do escritor: Caixa de Sapato podcast
Caixa de Sapato podcast
7 de jul. de 2021
7 min de leitura

"Durante uma viagem comum, dentro de um vagão de metrô, reflexões pandêmicas acometem mais um dia de vida de alguém".


Tem coisas que acontecem na nossa vida e por algum motivo nos deixam mais feliz. Tem coisas que deixam a gente triste. As vezes esses acontecimentos podem não ter quase nenhuma importância no futuro. Quando pensamos: uau, por que eu gostava daquilo? Ou por que eu me sujeitei a tal situação? As coisas acontecem assim, e elas mudam porque a gente muda e passa a perceber que essas tais coisas que eram grandiosas, na realidade podem não ser nada demais. Penso nas


coisas que eu estou passando agora. Não fico necessariamente ansioso, mas curioso com meu eu no futuro. Será que ele olhará para trás e achará tudo uma bobagem? Que na verdade as coisas nem estavam tão ruins assim?


Na realidade, acredito que as coisas só ficam piores quando a gente passa por algo mais dramático do que a coisa anterior. Quando eu tirei os sisos, por exemplo, eu não conseguia comer direito por conta dos pontos na boca. Consequentemente, eu ficava com fome, o que me deixava extremamente mal-humorad


o e um pouco infeliz. Ali, eu dei muito valor pelo simples fato de ter dentes e poder morder a comida, degustar e engolir. Um simples ato de mastigar, algo que naquele momento não era possível, me mostrou que as pequenas coisas muitas vezes não são notadas, valorizadas. Afinal, eu queria comer do jeito de antes, mas pra isso eu precisava consertar os sisos, quer dizer, tirar eles para que nada de ruim acontecesse num futuro próximo. A dor de agora pode evitar outra dor amanhã.


Esses dias peguei o metrô depois de alguns meses em casa. Há muito tempo não compreendia a dimensão que é o espaço para além de mim mesmo. E esta dimensão pode ser realmente impressionante. Primeiro, porque há milhares de pessoas que eu não conheço, que nunca vi na vida. E cada pessoa tem uma vida que está ligada a outras centenas. Correndo para trabalhar, estudar ou se


ja lá o que for. O mundo foi se estruturando para caber todas essas pessoas, mas claro, de um jeito desigual, torto, na qual a maioria teve e tem que se virar. Essas pessoas são elas mesmas e nem sei o que elas estão pensando, para onde estão indo. E elas não me conhecem. Se eu pudesse escolher um superpoder, um deles seria ficar invisível. Não para vigiar ninguém, mas para simplesmente não ser visto, notado. Porque quando a gente é notado nesses espaços públicos, é como se essa dimensão lembrasse que fazemos parte dela. Quando algum tipo de falha social da Matrix acontece, como por exemplo, quando tropecemos, essa espécie de erro de continuidade chama a atenção. E chamar a atenção pode ser um tanto constrangedor, porque, de novo, expõe nossa existência fazendo dela uma protagonista naquele tempo/espaço, mesmo que por poucos segundos.





A morte é algo que, apesar de não ser um erro de continuidade, exprime essa coisa do existir. A coisa toda acontece de um segundo para o outro. Num momento está, no outro não. E para sempre. Isso faz com que a gente imagine esse estar, um passado daquele ou daquela que se foi ou até o futuro interrompido. Essa complexa expansão imaginativa só é possível com a morte, com a certeza de que nada mais será possível, a não ser a expectativa daquilo que não acontecerá e um saudosismo que se transforma numa esfera dentro do peito, um impulso nas pernas e um arder nos olhos.


Há quem desapareça ainda vivo. Que some sem dar explicações, como fumaça no ar. Esse são mestres porque não precisam da morte. Quando alguém morre na maioria das vezes a gente sabe onde está o corpo. O sumiço do vivo é um quebra cabeça na qual se perdera a peça principal, a do meio. O desaparecer sem deixar rastros é de uma coragem sem precedentes, quando feito consciente, porque desata uma série de consequências para quem fica, seja como amor, dor ou indiferença. Porventura, para ser um imenso favor. Ou um grande desastre. Eu não sei se já desapareci, talvez sim. Para mim mesmo, algumas vezes.

De qualquer forma, o voltar a viver em sociedade, para quem realmente teve que se restringir ao espaço da própria casa por muito tempo, pode ser um pequeno desafio. Porque o mundo, diante de tanta desgraça e pessoas mesquinhas, duvidosas e mais ou menos, é chato. Sem graça. Com teatro fechado e cinema a quarenta conto o ingresso, a cidade padece de espaços de superação básica da alma.


Ir ao supermercado para mim virou o pior programa de todos, porque lá é como um espelho social. No carrinho de compras das pessoas você sabe quem tá melhor ou pior, quem tá levando um quilo de contrafilé e quem leva a bandejinha de pés de galinha, no mesmo estande de carnes. A impaciência, a pressa, o cansaço e a indiferença são tamanha que quase me tiram o ar. Sinto minha ansiedade crescer em poucos segundos, principalmente quando avisto a trupe da máscara no queixo.


A única coisa que vale a pena é a caminho. Porque dá para tomar sol. Tudo parece um imenso simulacro. Principalmente quando as ruas estão complemente vazias em plena tarde. E eu gosto. O tempo cronológico é alterado. Sinto a temperatura como ela de fato deve sem sentida, já que, quando a avenida está lotada, ando mais rápido do que o normal e rapidamente já estou suando, com mais calor do que deveria.


Mas sem gente não há cidade. Não há nada além do natural. Um mundo sem humanidade seria o ideal e acho que todo mundo concorda. Eu ainda não consigo separar completamente meu lixo reciclado. Muito menos tenho coragem de mandar uma mensagem xingando a droga daquela pessoa de um ex-relacionamento de 2016. Se eu acordo me sentindo um ser humano mais ou menos, como aqueles que julgo quando reclamam da roupa do fulano ou maltrata a caixa de supermercado, e no meu caso, ser mais ou menos é ainda estar na mesma cama e me reduzir a um currículo de duas laudas, com a ponta dos cabelos secos porque não tenho dinheiro para comprar um condicionador, eu mesmo tenho que me acudir. Afinal, não tem ninguém que esteja vinte e quatro horas perto de mim para me lembrar das qualidades. De que na realidade o mundo é legal porque tem gente legal e porque o ser humano inventou a arte.


Essa indiferença pelo desconhecido é algo que vem sendo alimentado pela própria indiferença sobre si mesmo. E cultivar o amor-próprio vem se tornando tão, mas tão piegas que me causa certa... indiferença. Porque no final das contas não é só isso, só amor-próprio. E eu juro que estou tentando entender o porquê não ligo mais para a senhora da fila do mercado, e porque eu ligava antes ou só fingia que ligava. Eu detesto hipocrisia, mas todo mundo é um pouco, a gente é criado pra conseguir aguentar certas coisas.


Acho que a falta de contato tem contatado a ausência de afeto e tornando todo mundo mais chato. Tem gente que piorou.


No vagão do metrô, eu sutilmente olho para as pessoas ao redor. Cada uma é um mundo próprio que conhece outras pessoas, que tem família, que mora em algum lugar e tem a própria história. Por que não sou amigo daquela moça de vermelho? O que seria da minha vida se a conhecesse? Todos esses comentários são tecidos porque de repente eu não estou só. E estar só é um estado quase de proteção, de útero de mãe. A gente não precisa olhar para nada e nem lembrar que há outras coisas a não ser nós mesmos. E isso pode ser bem simples durante um tempo. Mas depois se torna pesado. As pessoas que a gente ama, que por um acaso ou por outro entraram na nossa vida exprimem nossa existência o melhor ou pior de nós. E isso faz parte de estar vivo. Infelizmente a vida não é um mar de aventuras. Mas o simples pode tornar as coisas um pouco melhores.


Ainda faltam seis estações, talvez uns quinze minutos para descer. Não faço contato visual com ninguém e ninguém faz comigo, porque seria imprudente, poderia causar uma confusão. Contato visual a gente só faz quando sente um mínimo de interesse na existência ou causado pela necessidade física. Ou causado por um acidente de percurso, uma outra falha na Matrix.


Enquanto estou sendo levado pelo trem, eu me levo para todo o sempre. Ora vagando, ora só indo, porque a vida não vai para trás, ela vai para frente.


Naquela mesma linha de metrô, há alguns anos, eu estava com uma pessoa que eu gostava muito. Já era tarde de noite e o vagão estava praticamente vazio. No cinzento das paredes, e quem conhece o metrô de São Paulo sabe que tudo é muito cinza e limpo, diferente dos metrôs de Nova Iorque infestados de ratos (não que eu já tenha ido para NY, mas é a referência que tenho), de repente pousa algo que eu acredito ser um louva-deus ou algum inseto diferente e muito, muito verde. Do lado de fora, acompanhava o vagão grudado no vidro ao lado do assento onde estávamos. Isso de imediato se tornou algo muito significativo. Porque, afinal de contas, não é comum esse tipo de bicho em lugares como aquele, e tudo que não é comum pode ser considerado especial dependendo do estado de espírito. E o meu naquele momento estava aberto para significados sem sentido algum e que hoje é simplesmente um inseto no metrô. Mas que naquele dia tinha se tornado algo além, mais do que a concretude da imagem. Como uma pincelada no cinza que transbordou para fora aquela sensação que estava posta. Eu estava, provavelmente, apaixonado, então a gente vê coisas mesmo. Talvez pela cor verde viva do bicho que estourava no cinza escuro e todo o lance da esperança e o contraste entre selva e pedra. Tudo chamava muito atenção e meus olhos iam mais longe do que agora. E de fato nunca mais encontrei nada parecido. E mais, eu nunca tinha estado tanto tempo sem ver ninguém como esses últimos meses.


O metrô se tornou novamente só um espaço cheio de gente que pensa tanto ou mais do que eu. E ali e eu sou só mais um, algo ocupando um lugar, cheio de olhos olhando para o chão ou para a tela do celular. Como um umbral onde as pessoas esperam seu parecer final. Um vagão cheio de almas que só esperam e ao sair para fora retornam com alívio para a esfera do mundo, para suas vidas e eu volto para a minha, para o meu quarto e para mais alguns meses comigo.


Escrito por: Luiz Gonzaga Souza (@luizgonzaga.s)

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