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#9 A Caixa

Foto do escritor: Caixa de Sapato podcast
Caixa de Sapato podcast
7 de jul. de 2021
4 min de leitura

"Um armário sujo pode ser casa de alguém por uma vida inteira? O que há nos segredos que dizem quem somos diante de ideias inventadas?"


A caixa de madeira, ou de qualquer material, na realidade guarda mais coisas daquele que está fora do que quem está supostamente dentro.


A ideia de se estar num lugar fechado, escuro e apertado, onde pouco se pode respirar, que contém mofos e pó de décadas, na qual o peso de objetos antigos e pouco utilizados pressionam o teto até o ponto de quase cair sobre a cabeça de quem ali está... essa ideia é puramente uma ideia, uma construção errática paralela ao desejo fortuno por qualquer audiência.


O armário contém o cheiro untuoso das roupas e outras coisas que permanecem amassadas e pouco limpas, ou nunca limpas, no meio de meias sem pares, farrapos, cuecas e calcinhas. Há alguns pregos mal colocados com as pontas para fora bem na altura dos olhos. Não há maçanetas e tampouco puxadores. As portas são pesadas. Ao tentar empurrá-las, um som agudo, como unhas afiadas arranhando um quadro negro, surge e se torna necessária abafar tal insuportável som com a palma das mãos.


Ninguém sai do armário. Porque o armário não existe. Pequenas baratas saltam sem perceber ou simplesmente por não se importarem com os pés que ali estão, dançando entre os dedos ou emaranhadas entre as gavetas comidas pelos cupins, andando sem direção naquele pequeno espaço ocupado por alguém que também não existe, mas que foi empurrada, trancada, sequestrada, mas principalmente imaginada. E na imaginação pode-se criar as piores das imagens, acontecimentos aterrorizantes e sobre-humanos.


Os ratos, irritados e famintos, mordem os dedos dos pés encolhidos. As caldas dos roedores roçam nos calcanhares da pessoa encurralada pelos bons costumes e os pelos ásperos tocam as canelas ao farejarem o possível alimento. Viramos espectadores. Insípidos comensais de conteúdo online barato.


Ninguém quer estar no armário, porque este não existe. Imaginaram. Criaram. E imaginação não se rouba. É território não colonizável, desprendido de limites e incalculavelmente feroz.

O armário poderia ser um baú, ou uma caixa de sapato, ou até mesmo um cômodo. Porém, o armário tem espaço suficiente para um corpo humano adulto, que colocado ali criança, se desenvolve em meio a pouca claridade.




A única diferença entre um armário e um caixão, é que o último é posto na horizontal e não detém de gavetas.


Antes mesmo de entender que merda há de errado com o mundo te fizeram acreditar na existência desse espaço, de que ali era o lugar do medo, da covardia, da suposta segurança e da sobrevivência. A culpa foi introjetada de tal forma que te fizeram crer que tudo fora criação sua. Que se nasce ou origina-se daquele mísero mofo.


Você nunca esteve lá. Mas sua memória grita por lembranças de uma prisão que você nunca pisou. Contaram-lhe uma mentira. Mataram a tua verdade. Plagiaram tuas lembranças.

A invenção do armário foi a maior arma para dizer que culpa era sua. Um dia usaram a tal metáfora como arma para desenvolver ilusões que te destroem até você ser capaz de sair com um grito tão alto que estoura tua garganta, fura teus olhos, machucam teus pés comidos pelos ratos e defecados por baratas.


E depois de te obrigarem a dizer o que eles mesmo tentaram esconder, dizem que a responsabilidade é sua. Que estava escondido dentro de um armário imaginário na qual você nunca esteve. Que sua saída, sendo triunfal ou não, diz respeito apenas a você.

Depois de uma luta com diversos monstros invisíveis que se corporificam, aí sim é possível pensar em ser de verdade quem se é. E ser quem se é. Viver quem se é.

O armário cada dia abriga uma pessoa diferente: cabelo crespo, gorda, branca, negra, magro, estrangeiro, transgênero, gênio, burro, careta, mulher, brocha, religioso, ateu, refugiado, bandido, mentiroso, jovem, velho, sujo, puta, trabalhador, trabalhadora, pobre, vagabundo/vagabunda, viado, esquerda, comunista...


Ninguém sai do armário, porque ninguém jamais esteve nele. E porque um segredo não necessariamente nos prende numa caixa escura. O segredo pode ser aquilo de mais verdadeiro que há dentro de si, mesmo os mais dolorosos. A verdade, quando brotada no mundo, se manifesta com vida própria. Destrói e acalanta.


Quando um segredo não é um pacto, mas uma convenção, esse afoga nosso ar em terra firme. Colocamos cordas nas mãos e nos pés como marionetes ambulantes numa tristeza sucumbida em sorriso.


O segredo pode ser o maior modo de sobrevivência de alguém. Um segredo compartilhado, em grupo, que toma a mão uma arma ou uma caneta, onde ambas podem destruir e resistir dependendo dos contextos, podem destituir ditaturas.


O armário é um espaço imaginário que abriga aquilo que não quer ser visto, mas que existe. Que anda, fala, xinga, cospe, transa e trampa. E no choro mais desconsolado, no grito de dor do abandono ou do último suspiro de uma jovem vida, o que resta toma como coragem a destruição de qualquer parede de madeira com cheiro untuoso, com roupas sujas e ratos nos pés.


O cansaço pode vencer batalhas diárias. A exaustão é um estado cada dia mais verossímil porque de fato mata um pouco por dentro. A gente tenta se livrar dele como uma pedra no sapato. Já não basta o trabalho de viver diante de um mundo que exista bilionários. É preciso ouvir as piadas. E humor antiquado, ardiloso, com manhas de pequena vontade de destruição e ego, é infinitamente o pior de todos. Morrer de rir talvez seja a pior morte, porque é um tipo de sufocamento misturado com espasmos que acometem o tronco e a garganta. Alguém já aguentou cocegas por mais de duas horas seguidas?


Ninguém é capaz de me domar.


Escrito por: Luiz Gonzaga Souza (@luizgonzaga.s)

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