#7 - A Vaga
Tenho uma espécie de doença no ouvido. Escuto um zunido constante e agudo vinte e quatro horas por dia. De certa forma, não considero isso uma doença. Alguém me disse que era, e eu acreditei por algum tempo. A gente as vezes tem dessas de acreditar nas coisas que as pessoas dizem. Sem nem muito critério, escolhemos quem é mais ou menos acreditável. Até porque acreditar em si mesmo precisaria de muito mais trabalho, muito mais reflexão e principalmente, aceitar o que somos, o que temos e o que não temos. Aí fica difícil. A vida fica chata. Tem gente que acredita em Deus. Tem gente que acredita em amor de filme de comédia romântica. Eu, acredito em desafio. Acredito em mal “caratismo”, em gente que quer se dar bem a custas dos outros. Também acredito na essência boa dos cachorros, na democracia. Mas não acredito que meu zunido seja uma doença.
O zunido começou a alguns anos atrás, por uma deterioração que provavelmente é genética. Não houve acidente. Nasci com ele. Premeditado a desenvolver algo que é meu, que eu sou e é assim. Viver num mundo sem zunido é impossível. A não ser que ele ganhe vida própria e decida ir embora. Mas não posso contar com isso, seria leviano e um tanto ilusório. No momento em que acordo, no banho, no ônibus, em todos os lugares e situações, eu ouço a linha fina e aguda se desenrolar infinitamente e se envolver em cada ser que estiver ao meu redor.
O fato desse som ser completamente invisível e somente eu ouvi-lo, é que isso poderia ser uma completa mentira. Na infância, minha mãe ficava na dúvida se era ou não alguma brincadeira, porém me levava à médica que sempre solicitava os mesmos exames, e por serem caros demais, deixávamos para lá. Meu pai dizia que era frescura. A vizinha dizia que era água do ouvido. Minha tia sugeria me levar à benzedeira, na qual fui muitas vezes.
Até que um dia menti dizendo que não estava mais ouvindo o zunido, só para minha mãe parar de choramingar porque aquilo já estava me deixando aflito e triste. Foi a primeira grande mentira da minha vida.
O zunido não havia ido embora coisíssima nenhuma. Ele era eu. Fazia parte de mim. Como um terceiro braço, ou outro par de orelhas. Me tornava diferente das outras pessoas, ou ainda mais diferente. Partindo do ponto de vista que todo mundo em si é diferente, e o que nos assimila são nossos desejos, o som tornara-se uma espécie de alter ego, me tornando uma pessoa mais complexa e menos concentrada.
Por vezes tenho impressão de que o som me domina, que ele é quem me dita os passos, as falas, as ações. Que sou uma marionete. A gente é um pouco marionete de si e tenta fazer o outro ser também, quando a gente espera do fundo do coração que o outro pense e faça exatamente aquilo que gostaríamos. Isso é manipulação de terceira categoria. O zunido não, o zunido não espera que eu faça, ele vai lá e faz. O mundo de repente passa a ser uníssono.
A única certeza que tenho é que se caso explodisse meus ouvidos, tudo sumiria, exceto o zunido. Ele não está ligado a órgão nenhum. Ele existe na minha cabeça e só vai sumir quando eu morrer. Tem coisa que é nossa, que não some.
E eu não quero morrer. Quando estou sozinho, solitário, é ele quem me faz companhia, que me lembra que estou vivo. E nos dias de hoje, lembrar de estar vivo é coisa rara. É preciso cada vez mais de estímulos, mais velocidade, o volume cada vez mais alto. Tanto que o silêncio pode vir a ser uma experiência quase morte. O vazio.
Um dia recebi um e-mail me convocando para uma entrevista de emprego. Seria via zoom, como tudo estava sendo tinha mais de 10 anos. Desde que a pandemia começou, fui poucos semestres à escola e fiz minha faculdade metade online. A outra metade era como um exercício de simpatia, não no sentido de como ser legal, mas para não esquecer como lidar com as pessoas presencialmente. A maioria achava bobagem e perda de tempo. As pessoas se encontravam nos bares e festas. Mas as coisas andavam mais violentas. E tudo que fosse físico e presencial era muito mais caro. Na faculdade, tínhamos rodas de debate e no final tínhamos que nos abraçar, num exercício de afeto. Isso fez com que se criasse um movimento de boicote. Ninguém foi a faculdade no dia da aula presencial e todos entraram online ao mesmo tempo para o sistema travar. Dito e feito. Pararam com essa coisa de abraço no final.
Eu estava desempregado há quase dois anos. Isso é bem comum para pessoas da minha idade. O que não tornam as coisas fáceis. Então receber um convite para uma entrevista era algo bom, um passo importante.
A vaga não era lá essas coisas. Mas pagava um salário suficiente para as contas e ainda sobrava alguma coisinha para o fim do mês. Definitivamente, não era essa a vida que tinha pensado para mim quando era criança. Não imaginava grandes coisas, mas viver dessa forma, contado as moedas, comendo arroz com salsicha dia sim dia não, estava longe do meu ideal. E eu não me considero uma pessoa ruim. Digo, eu não faço mal a ninguém. Se eu estiver pagando algum pecado, só a fato de viver com o zunido já não seria o suficiente? Posso ter sido um monstro na vida passada, se eu acreditasse nela. Eu poderia me tornar um monstro nessa vida. A alma dos monstros está nos pelos, no urro, na força. Não sei se valeria a pena. Enquanto continuo não tendo muita certeza de quase nada, procuro vagas das mais diversas, porque as contas chegam e não esperam. Um pedaço de papel com alguns números me faz ter que ser o que não quero. Isso me mata um pouco.
Ligo a câmera e o microfone. Entro no link que me enviaram por e-mail. Não sei muito o que esperar. A ligação se inicia e três janelas simultâneas aparecem. Duas mulheres e um homem de meia idade. Me vejo também, e minha cara não está ruim, mas poderia estar melhor. Talvez o cansaço e ter que lidar com a esperança de sair da pindaíba ao mesmo tempo o fato de não poder criar muitas expectativas. Pode ser mais uma entrevista que não dará em nada.
Como convenção, uma série de “boa tardes” se iniciam, que na realidade mais servem para testar o microfone. Visto um sorriso, o mais cativante. No online, a gente precisa exagerar um pouco.
Eu já estou cansado. Cansado da minha vida. E as pessoas das telas também. Cansadas da vida delas.
Alguém lança uma piada. A gente ri. Menos o homem, que é o RH, e parece o mais infeliz, fingindo estar arrumando o fone. Eu, como quero o emprego, rio também. Na realidade, o homem do RH deve ser o mais feliz de nós quatro da reunião, pois não riu e não se importou.
Me perguntam se estou bem e com quem moro. Minto. Digo que estou bem e moro com meu pai e minha mãe. Na realidade, moro sozinho há dois anos. Não dá tempo de explicar como isso aconteceu.
Me explicam um pouco sobre a vaga. Ouço sabendo que, se pudesse, nunca trabalharia ali. Mas preciso ser forte, porque as contas não esperam. E não tenho mais de onde economizar.
Perguntam sobre minha trajetória e algumas experiências passadas. Depois, sobre minha relação com a vaga e a empresa. Me interrompem umas quatro ou cinco vezes, como se eu não tivesse entendido a pergunta, e todas as vezes retomo exatamente de onde parei, continuando o raciocínio. Não me escutam. Aliás, fingem ouvir. E isso me deixa com a pulga atrás da orelha, pois acho que não serei contratado. As duas mulheres falam umas sobre as outras. O homem boceja de vez em quando. Uma delas parece simpatizar comigo, e me sinto um pouco mais confiante de que não fora o fim.
Eu preciso desse emprego, e por tanto precisar dele, fico agoniado e inquieto na cadeira e meu sorriso aumenta ainda mais. Se eu parecer simpático, talvez isso ajuda na hora da escolha de quem irá ocupar a vaga. Mostrar interesse mostrando os dentes. Um dia alguém me disse para não olhar para a tela e sim direto para a câmera, pois assim a pessoa que está me vendo consegue me olhar direto nos olhos.
Bobagem. Nesse momento somos trilhões de pixels e sons saindo de fones que estão longe de ser nossas verdadeiras vozes. Tudo projetado é uma mentira. Ainda por cima, a falha na conexão que trava, ora a voz, ora a imagem, me tira um pouco do sério porque tenho que ouvir tudo de novo por duas ou três vezes.
Ninguém diz que isso é chato. Ninguém tem coragem de gritar “isso tá uma merda”. Vão fazer o que? Inventar algo melhor? Longe disso. Querem comprar o que funciona, crakear um programa que não seja rastreado. Querem acabar logo com aquela reunião para contratar uma pessoa que trabalhe por, no mínimo, três.
O zunido, no entanto, passa a se tornar mais agudo a ponto da minha cabeça doer. A frente da testa queima e o fundo do cérebro pesa uns vinte quilos. Tento me concentrar o máximo que posso nas entrevistadoras. Agora o homem fala algo sobre salário e benefícios.
A dor se torna mais forte e o zunido mais claro, mais intenso. Minha testa queima e o resto do meu corpo passa a se anestesiar vértebra por vertebra, como uma febre intensa. Minhas articulações começam a dar espasmos, e minha temperatura sobe. O zunido grita, alto, muito alto.
O que é que estou fazendo da minha vida? O que é que fizeram da minha vida? Quem tive que me tornar para poder ao menos pedir uma pizza no fim de semana? Será que essa gente sabe alguma coisa além daquilo que vivem enfurnados num escritório quase dez horas por dia? Eu não quero essa vida e eu minto dizendo que eu quero porque não tenho escolha. Porque no mundo eu e a maioria das pessoas não teremos lá grandes escolhas. Então é isso. Isso que é o sistema. Quanto mais cansado, mais domado. Pois eu estou exausto. Eu quero ter que ser eu sem precisar dizer que eu adoro fazer uma coisa que eu odeio. Fazer projetos e enviar para uma dúzia de e-mails para nenhum responder. Convenhamos, isso é tão 2020. Não se trata de estar no campo, no escritório, na rua, no circo, no museu ou seja lá onde. As pessoas deveriam estar minimamente onde elas gostariam de estar, inclusive lugar nenhum. O que é quase impossível.
Essa cadeira elétrica que eu estou fazendo essa entrevista prova que não passo de mais um candidato.
E os entrevistadores não passam de uns entrevistadores. Cada a mim dar-me minha própria liberdade. Quando isso aqui acabar, vou beber um gole d´agua, porque coca não tem. Xingar o presidente reeleito pela câmara dos militares e terminar de ler Brás Cubas. Engolindo seco, a gente se pergunta: por que eu tô fazendo isso? E aí se lembra de certas verdades e tudo fica um pouco menos complexo. “Porque você precisa comer, as contas não esperam”. As contas não esperam.
De súbito, a dor cessa e retomo a consciência. O zunido volta a ser uma linha aguda, comum aos meus ouvidos. Minhas pernas estão levemente dormentes, mas minha cabeça já consegue distinguir onde estou. Olho para a computador. Minha câmera e microfone estão ligados. Noto uma cara de espanto das três pessoas projetadas. Compreendo que elas assistiram toda a minha crise, como uma peça de teatro online. Como uma performance. Como telespectadores assíduos.
Uma delas abre o microfone e diz: Muito obrigado, a gente entra em contato com o resultado da entrevista, na semana que vem.




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