#5 Caio
Esses dias eu vi no Instagram alguém citando Caio Fernando Abreu. De súbito, me lembrei do primeiro livro que li escrito pelo Caio. Morangos Mofados. Eu gostaria de ter sido amigo dele. Não só pelo grande escritor que ele é, que ele foi, mas o quanto de mim pude ver dentro das linhas escritas tão cheias de vida, de dor, de tesão, de mim mesmo.
O que mais me cativa nos livros é esse dizer em voz silenciosa. Saber o que pensou alguém que nasceu décadas antes de mim. Que morto, grita dentro de folhas de papel ou sussurra diante das escolhas não deliberadas.
Caio nasceu em 1948 e morreu com 47 anos. Numa pesquisa rápida, descobri que ele se refugiou no sítio de Hilda Hilst, fugindo do DOPS na ditadura militar. Portador de HIV, morreu no mesmo dia que Mário de Andrade, no dia 25 de fevereiro, no ano de 1996.
As décadas da juventude de Caio talvez tenham sido as mais difíceis do país após da abolição da escravatura. Apesar de não estar lá para saber, e compreender que um lado sempre se fode mais que o outro, não se pode amezinhar uma ditadura. Não se brinca com o silenciamento político, com tortura, com massacre de pensamento. As frutas cresciam mais amargas, a carne mais dura. A morte deveria ser um espectro, parte do cenário, como um fantasma que se esguia.
A morte tem dessas de deixar a gente sem ter o que dizer, sem muito otimismo. Estar aqui e depois não estar mais.
Caio amava Clarisse, amava Cazuza.
Eu amo meus amigos. Amo minha mãe e até meu pai. Não sei se amo o Caio, mas já amei João e Fernando, e já criei amores pra sobreviver aos outros.
Eu pus Ângela Roro para tocar por causa dele, por causa de seu conto Os Sobreviventes. Não foi alguém vivo que me disse para ouvir Ângela Roro, foi alguém morto. Essa é a máxima da aproximação das dimensões. Não existem exorcistas para bons livros.
A morte me causa medo, porque a vida ainda me parece bonita e rápida demais para passar sem conhecer muita gente, sem ler muitos livros. Porque dentro de cada um tem muita gente também. E a gente se descobre mais a cada ano provando a existência dessa multidão parte calada, parte falante. No meu aniversário, data tão comemorada, tão especial porque é assim que é, é assim que todo mundo tem que comemorar, é como se eu morresse um pouco. Não por estar, de fato, mais perto da morte, mas porque estou trocando de pele como uma serpente, ou como uma borboleta que sai de um novo casulo. A carcaça de mim ficou para trás. O esqueleto é o mesmo, mas a cabeça ainda monta um álbum de figurinhas com as lembranças que vão se emaranhando e disputando espaço. Cada vez o passado se torna mais um filme ou uma peça de teatro que a gente sente o gosto de presença que só o teatro te dá, algo entre um sonho e uma realidade paralela. Não há sensação mais viva que assistir uma peça ou filme que te arrebata. A própria língua transpira.
Os aniversários são um fim de um ciclo de o recomeçar de outro. Talvez o mundo seja tão cruel que continuar vivo realmente deva ser comemorado.
Será que nossas ideias também envelhecem com os maus hábitos. Ou se o contrário, tornam-se mais jovens. Apesar da memória falhar com o passar dos anos, aumenta-se o espaço para inventar e perdemos o medo de parecer ridículos.
A minha questão com o vazio é contraditória. Não me importo em ficar sozinho, mas em estar sozinho. Há diferença entre ambas. Imagino que Caio fora um homem solitário. Em sua época, um homem que amava outros tendia a viver na solidão, com seus amores passando entre os dedos. Tendo que recorrer às lembranças como um filme. Contentando-se com o próprio corpo. A solidão pode ser um tanto erótica, e nela Caio escreveu contos que sobrevivem as décadas até chegar em mim porque algo eles tinham para me dizer. Porque no século XXI a gente ainda tem medo Caio, medo de beijar com lábios molhados e de encostar os dedos suavemente nos dedos de um homem. Ou o enlace de duas mulheres. O homem em si ainda é perigoso, limitado, ausente de graça. Mesmo os que amam.
Mas os carnavais de tornaram grades. E tem muita gente bonita e talentosa.
Me pergunto também se você tinha uma relação próxima com sua mãe. Imagino que sim, já que passou os últimos dias de sua vida na casa de seus pais. Peço desculpas por saber tão pouco da sua vida, Caio. Ao mesmo tempo fico feliz pela facilidade que minha época me dá, que só de digitar seu nome, posso ter algumas informações que se constituem em imaginação.
Caio, quem é a pessoa que você mais amou na vida? Do que você tem medo? Me conta o que eu nunca saberia crescendo nesse século?
Se vivesse agora, o que teria escrito? Teria baixado aplicativos de relacionamento?
“Amo somente um vazio e me Acalmo Danando”.
Se eu escrevo, é porque descobri esse jeito de continuar vivo após a morte. Porque você Caio, me dá vontade de escrever e ser jovem.
Não sei se te amo, mas isso não importa. Deita e fica em silêncio.
Faço das homenagens de Caio Fernando Abreu as minhas. Feito no ano que eu nem existia, para 2021, o ano que a existência é jogada como cartas de truco e números mediados por seguidores no Instagram.
Porto Alegre, 1995.
À memória de John Lennon, Elis Regina, Henrique do Vaile, Rômulo Coutinho de Azevedo e todos meus amigos mortos.
A Caetano Veloso. E para Maria Clara Jorge (Cacaia), Sonia Maria Barbosa (Sonia de Oxum Apará) e todos meus amigos vivos.
À sua vida Caio e a todas as obras dos mortos que ainda falam.
Lerei o conto “Diálogo”, do livro Morango Mofados, dedicado a Luiz Arthur Nunes. De antemão, explico que na leitura o diálogo está separado entre pessoa A e pessoa B, dando ao leitor a diferença das frases de cada uma. Lerei de forma corrida, tentando dar ênfase suficiente para diferenciar uma personagem da outra. Se é que elas são duas. Ou três. Ou mil.
A: Você é meu companheiro. B: Hein? A: Você é meu companheiro, eu disse. B: O quê? A: Eu disse que você é meu companheiro. B: O que é que você quer dizer com isso? A: Eu quero dizer que você é meu companheiro. Só isso. B: Tem alguma coisa atrás, eu sinto. A: Não. Não tem nada. Deixa de ser paranóico. B: Não é disso que estou falando. A: Você está falando do quê, então? B: Eu estou falando disso que você falou agora. A: Ah, sei. Que eu sou teu companheiro. B: Não, não foi assim: que eu sou teu companheiro. A: Você também sente? B: O quê? A: Que você é meu companheiro? B: Não me confunda. Tem alguma coisa atrás, eu sei. A: Atrás do companheiro? B: É. A: Não. B: Você não sente? A: Que você é meu companheiro? Sinto, sim. Claro que eu sinto. E você, não? B: Não. Não é isso. Não é assim. A: Você não quer que seja isso assim? B: Não é que eu não queira: é que não é. A: Não me confunda, por favor, não me confunda. No começo era claro. B: Agora não? A: Agora sim. Você quer? B: O quê? A: Ser meu companheiro. B: Ser teu companheiro? A: É. B: Companheiro? A: Sim. B: Eu não sei. Por favor, não me confunda. No começo era claro. Tem alguma coisa atrás, você não vê? A: Eu vejo. Eu quero. B: O quê? A: Que você seja meu companheiro. B: Hein? A: Eu quero que você seja meu companheiro, eu disse. B: O quê? A: Eu disse que eu quero que você seja meu companheiro. B: Você disse? A: Eu disse? B: Não. Não foi assim: eu disse. A: O quê? B: Você é meu companheiro. A: Hein? (ad infinitum)
Este foi mais um episódio do Caixa de Sapato e até a próxima.




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