#6 Fósforos Acesos
Nós, jovem brasileiros, estamos longe da faixa de gaza, longe da Coreia do Norte, e mais longe ainda de qualquer “ameaça” comunista que nunca existiu. Porém, estamos em guerra. E haja coragem.
A gente fala tanto em ter coragem, que o melhor mesmo seria assumir que a gente é mais covarde do que necessariamente corajoso. Eu diria que sempre que pensamos duas vezes sobre algo, é covardia. Esse suposto “não-ato”, encontra em si uma beleza do não fazer, que já é um fazer. O que quero dizer é que a covardia pode salvar a gente de muita coisa. Imagina se todo mundo fosse tão corajoso quando pensa ou quanto diz ser. Teríamos duas vezes mais fascistas, assassinos, heróis e seja lá mais o que.
Quando a coragem vem de uma pessoa covarde, ela é genuína. Deixa de ser adjetivo e vira substantivo. Como num primeiro encontro romântico, a gente coloca nossa melhor roupa, o melhor perfume e vai. Com a coragem é igual.
Uma pessoa que acorda as quatro da manhã para trabalhar transformou a coragem em força de trabalho. Afinal, não se come coragem, não se dorme coragem, não se paga coragem. Mas no final de semana, se descansa a coragem para a covardia tomar uma. Ser corajoso cansa, não é?
A juventude é repleta de coragem. O problema é achar que coragem é qualquer coisa. No fim, quando a coragem chama, mas chama de verdade, a gente opta pela covardia, porque esse é nosso verdadeiro instinto de sobrevivência.
Na ditadura militar ter coragem era outra coisa. Na primeira e segunda guerra, na guerra do Paraguai, na Revolta dos Malês, em Canudos, no Vietnã, na Revolução Cubana, na primavera árabe, ter coragem... o que é ter coragem?
Uma paixão destrói uma pessoa e o que é ter coragem? Uma doença incurável muda a vida de alguém e o que é ter coragem?
Passei a ficar tão imóvel em meus pensamentos, rejeitando os desejos fisiológicos, me recordando de quase tudo o que me disseram em todos os encontros sexuais bem e malsucedidos e que em certo sentido me requereram coragem ou covardia. Quando se é muito jovem tanta coisa passa despercebida. Por que meus pais não tiraram mais fotografias minhas? Não tenho nenhum vídeo de festinha de aniversário. O amor de me ver criança, também imóvel na foto limitada pelos anos de qualidade do papel, me traz uma ligeira tristeza. E as vezes, imóvel pelo medo, ou pelo excesso de coragem que ativam meus músculos e os acionam prestes a golpear ou correr, procuro relaxar ao olhar nos olhos singelos da criança que eu fui, presa, não num armário, mas numa ligeira solidão que acomete os filhos únicos. Aos poucos, tornando dessa solidão uma companhia, uma amiga verdadeira, ela te solta e te deixa livre. Aí você começa a crescer, a dar os passos que são teus por direito de adulto. Se veste, constitui discursos, chora e ri. Um dia apanha, noutro dia bate. Numa noite ou numa manhã eu me torno tão imóvel até quase tornar-se um objeto. Um objeto pensando, com sangue correndo, com desejo correndo, com ódio correndo...
Um dia eu estava num bar qualquer. Um bar tipo de esquina. Na cadeira do lado tinha um jovem, um pouco mais velho do que eu. Era nosso terceiro ou quarto encontro. Num bate papo trivial, entre alguns petiscos e cervejas, ele brincava de acender alguns fósforos que usamos para nossos cigarros. Havia algo muito jovial, quase como uma brincadeira, um jogo de mistério ou persona que a gente precisa adivinhar qual é a personalidade escrita num papel e colada na testa. No nosso caso, eu era eu e ele, ele mesmo. E a gente tentava adivinhar a si e adivinhar o outro.
O problema é que ele roubava no jogo, porque sabia muito mais dele mesmo do que eu. Por isso, brincava e se divertia com mais domínio entre a verdade e a mentira. E eu, lidando somente com o que achava que era verdade, me punha para jogar de mãos limpas, sem cartas na manga.
A noite estava boa. Digo, boa no sentido de que a bar, com poucas pessoas, não deferia tanto perigo a nós, visivelmente imersos em nosso próprio jogo com as pontas dos dedos se encontrando de vez em quando.
O jovem desatou a chorar contando sua realidade, suas presentes dificuldades. Recentemente havia sido expulso pelo colega de casa, supostamente após ele não ter cedido às investidas do anfitrião. Suas roupas foram jogadas pela janela, num claro vexame e humilhação que se somava a outras questões complexas entre emprego e faculdade.
Eu o observava com certo pesar. Certa pena que por algum motivo me fazia estar mais aberto, mostrando levemente as minhas poucas cartas no jogo. Era a vez dele de lançar a carta.
Depois do dia no bar eu nunca mais o vi. Trocamos algumas mensagens. Depois, descobri que a história da expulsão era uma completa ou parcial mentira. E ele, obviamente, ganhara o jogo.
Numa rápida pesquisa, juntando algumas peças, as redes sociais me mostraram que ele não ficava no mesmo emprego por mais de dois meses seguidos, e que mudava de amigos a cada três. A ordem das fotografias postadas com data e hora, as expressões corporais e a inconsciência de informações já bastavam para eu contar uma história. Ele era um nato jogador.
Não sei se aprendi algo naquele dia, a não ser que devemos ter alguma carta na manga. Ou simplesmente estar preparado para mentiras que possivelmente podem se tornar verdades se não houver alguém para desmenti-las. No fim das contas, pouca importa se a história aconteceu ou não. Mas o jovem chorou na minha frente. E quem sabe chorar sempre tem algo a dizer, mesmo que não diga a público.
De certo modo eu me senti assaltado, como se tivessem me roubado algo importante. E como num assalto, eu fiquei atônico, por um momento sem saber bem o que fazer. Depois, fui tateando o ambiente até tomar a decisão de simplesmente voltar para casa.
A mentira pode ser um tipo de salvação. Ou uma proteção de capa fina, que se tenta tratar com cuidado para não arrebentar. A dureza da verdade revela a vida crua. A mentira é o fogo que queima, salga e tempera a existência. A mentira como ficção ou pós-verdade, como poesia ou imaginação, pode ser a carta na manga que falta aos inocentes.
Não se trata de quem ganha ou perde. Como diria Dilma: vai todo mundo perder. Em algum momento todo mundo perde, mente. Se você usa a mentira ou a verdade apenas ao seu favor, você não está sabendo jogar.
Se a gente precisa ser corajoso para tudo e busca somente e puramente a coragem, não há espaço para o erro, para o tropeço, para um dizer mau dito. A verdade pode doer mais que uma mentira. E a gente precisa então mentir? Precisa ser covarde? Esqueça que se precisa ou que se é qualquer coisa. Seja somente coragem e verdade e o que sobrará de você?
Eu vou fumar um cigarro sem o peso de salvar o mundo e nem ninguém. E enquanto o cigarro não acaba, penso na minha juventude enquanto posso, com quantos mais vou dividir uma mesa de bar, no meu próximo emprego, nas contas que faltam pagar, no almoço não pronto, na casa desarrumada e na última pessoa que chorou no bar: filha da mãe! Você ganhou a porra do jogo.




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