# 2 - A ADOLESCENTE INFILTRADA E OS BEBÊS IMAGINÁRIOS
Atualizado: 20 de mai. de 2021
Neste segundo ensaio, as minhas "crises" (as aspas servem para generalizar mesmo o termo e não ser algo meramente negativo. Considere também como apenas uma observação, surpresa, estranheza ou qualquer outra coisa que caiba ao ouvinte) tratam-se de algumas percepções sobre adolescentes e bebês e outras cositas más. De antemão, espero que gostem.

Uma coisa que descobri que tendo a achar um pouco estranho, são adolescentes infiltrados ou trazidos pelos irmãos, primos, primas ou seja lá por quem, para festas ou eventos com pessoas mais velhas. Mais velhas tipo a nossa faixa etária. Bom, isso não inclui eventos de família, claro. Ainda assim, as vezes alguns espaços podem ser um pouco embaraçosos para quem tem lá os seus 17 anos. Claro que 17 para 18 é um pulo, e a maioridade, essa ideia, essa convenção, esse limite que a sociedade coloca para você do tipo: “olha, você tem 18 anos para se ligar nas coisas mais obvias para não morrer, depois disso boa sorte”, talvez sirva para que o próprio adolescente se ligue que ele precisa ter alguns limites. Mas as coisas não mudam de um dia para o outro. Eu já fui adolescente, claro. E você também. Essa fase tão estranha e rápida que parece durar uma eternidade.
Só por uma questão de curiosidade, a maioridade penal no Brasil surgiu por volta de 1830, e era atingida aos 14 anos. E só em 1940 foi fixada no código penal a inimputabilidade aos menores de 18 anos. Ou seja, a métrica para maturidade e discernimento baseada na idade em que você responde sozinho juridicamente pode ser meramente moral.
É obvio que tem muita gente adulta que age como adolescente e vice-versa. Mas não é sobre isso que quero falar nesse episódio. A questão é outra.
Descobri que tenho uma espécie de medo, ou diria, picos de responsabilidade excessiva que calcula os perigos ou constrangimentos em situações inusitadas. Não a ponto de ter um ataque de pânico, mas o suficiente para eu ter que fingir que está tudo bem e lançar um sorriso bem amarelinho.
Daí é que há uns tempos, antes da pandemia virar o que virou, fui a um happy hour bem divertido na casa de uns amigos. De repente, surge umas quatro pessoas na qual eu não conhecia, rindo e comentando algo sobre a portaria do edifício ter pedido o RG e perguntado se alguém era menor de idade. Até aí tudo bem, porque realmente acontece de pessoas maiores de idade serem confundidas com menores. Conheço uma pessoa com 30 que ainda passa por essa situação. Então eu ri também, simpático, e segui o baile.
Depois esse assunto voltou e eu entendi que realmente tinha uma pessoa menor de idade na festa e não obstante estava com um drink na mão e com uma cara absurda de 15 ou no máximo 16 anos. A sensação foi quase como se eu tivesse descoberto que tinham cuspido no meu copo ou que uma mosca tinha pousado na bebida e eu engoli sem perceber. Depois dos meus dezesseis, eu nunca mais tinha bebido vodca com alguém de dezesseis. Eu, tolo, perguntei para a dita cuja com o sorriso bem amarelo: Você é menor? E a criatura assentiu como um elogio.
Naquele momento, notei o quanto a minha adolescência estava ficando para trás e eu começava a enxergá-los como uma espécie a parte. Me senti estranho de não saber muito bem como lidar com ela, ao mesmo tempo pensando que não havia nada para lidar.
De volta à discussão, as pessoas ali falavam sobre como as portarias geralmente não pediam assinaturas de responsáveis para menores entrarem em condomínios na qual eles não eram moradores. E eu não entendi se estavam concordando ou discordando daquilo. E eu, que já estava na terceira caipirinha com gengibre, falei bem falado: “Ué, e tá certo, se acontecer alguma coisa com ela a culpa é nossa, a gente é responsável”. E meu estômago dobrou depois de um silêncio de alguns segundos. Pelo canto de olho vi alguém tinha concordado comigo. Graças a Deus.
Esse lance de me colocar como responsável pelas pessoas é coisa antiga. Criança, eu me sentia tão responsável por mim que eu mesmo me representava na reunião de pais e acompanhava as críticas e elogios em terceira pessoa. Na adolescência cuidei de muito amigo e amiga bêbado. Era aquele colega conselheiro, apesar de quase nunca saber o que dizer; talvez esses sejam os melhores.
Mas agora, me sentir responsável por alguém que eu nem sabia quem era, no meio de um monde de adulto, me perguntando quem é que naquela idade aparentando os quase trinta tinha uma amiga de 16 anos a ponto de levá-la a uma festa. Aquilo realmente me dobrou o estômago e minha cara de crítica provavelmente denunciara isso. Talvez meu próprio moralismo tenha se excedido. E quem não se excede? Quem por dentro nunca julgou alguém enquanto por fora disfarçava com um sorriso amarelo que serve para quase tudo e qualquer situação? Me lembrei de um dia que misturei maconha e álcool pela primeira vez. Minha pressão baixou tão forte que pensei estar tendo um início de overdose. Nunca havia fumado uma maconha tão forte na minha vida. O que eu fiz? Sentei e dei um sorriso. Em outra ocasião em que eu estava vomitando horrores numa sacola plástica, escondido, numa festa e alguém me pegou no flagra. Eu sorri também. Um sorriso bem dado pode salvar sua reputação, se você acredita nela. Um sorriso bem dado, sarcástico ou dócil, pode governar um país. Ninguém ganha concurso de beleza com cara de cú.
Pensando bem, se eu tivesse 16 anos eu ia AMAR estar num ambiente cheio de gente legal e mais velha. E não se trata de ir para uma casa de repouso ou coisa do tipo.
Suspirei, quase de alívio, quando descobri que a irmã da garota menor estava lá e ela quem havia trazido a menina. Ufa, graças a deus. Eu ando bem religioso esses dias.
Esse período da adolescência a gente se acha bem maduro. O ensino médio é o ambiente onde muita coisa acontece e geralmente é a fase em que se tem contato com álcool e dependendo da situação com drogas. E isso faz a gente se sentir maduro demais.
Aos nossos olhos.
Agora que eu estou mais pra lá do que pra cá percebo de forma cada vez mais nítida o quanto um adolescente age como um adolescente. E tá tudo bem. Esse lance de “nossa você é tão maduro para a sua idade” diz mais sobre quem disse a frase do que o outro. É a maior papinho furado da face da terra. Maduro sobre o que? E pra que?
Mas só de saber que existia alguém menor de idade num ambiente que teoricamente ela não estaria me fez automaticamente pensar: e se fosse um filho meu? Eu nunca tinha pensado nisso antes, nunca. Afinal, tudo tem sua primeira vez. Lembra do sorriso amarelo?
Eu acho que realmente gostaria que alguém assinasse algum termo de responsabilidade para se caso acontecesse alguma coisa, eu poder jogar na cara. Esse lance de “ah, bebeu porque quis” não cola para adolescente, porque adolescente quer tudo. Esse sentimento paternalista/maternalista não é consensual, eu sei. E todo mundo sabe que a maioria dos adolescentes bebem, escondidos ou não. A questão não é beber, é morrer mesmo.
Em determinado momento da festa, provavelmente manifestado pela jovem comendo um pedaço de bolo com chantili que fazia sua cara de 15 anos parecer ter 12, fez com que os jovens mais velhos iniciassem o assunto mais polêmico dos vinte e muitos: bebês.
Bebês, bebês, tê-los ou não, eis a questão.
É incrível como esse assunto de ter filhos é tão comovente para bom e o mal sentido. Das pessoas ali, a maioria não queria ter filhos. O que é super compreensível, criar uma criança dá trabalho, precisa de tempo, cuidado, amor, atenção e um emprego., coisa rara no Brasil.
O que quero dizer, é que os vinte anos, segundo a medicina, é um ótimo momento biológico para ter filhos. Mas eu diria que psicologicamente, talvez não.
Alguns medos que sentimos parte de experiências assistidas, na qual participamos direta ou indiretamente. Por exemplo, ver alguém caindo de moto e se ralando pode fazer com que você tenha medo de andar de moto. Ou direta, tipo, você mesmo caindo de moto e se ralando. E a outra grande parte é baseado em hipóteses e imaginação.
Esse medo maluco de ter ou adotar bebês parte de uma imagem pessoal que temos da família, da maternidade e/ ou paternidade traumática, dos altos custos e estresse que uma criança acarreta por boa parte da vida de uma pessoa. Isso tudo parte de uma projeção imagética, na qual colocamos todas as nossas ansiedades e angústias no coitado do bebê que nem existe. E isso pode se aplicar a outras coisas também, claro.
Partindo desses pressupostos os bebês imaginários são, no final das contas, agiotas sugadores de alma, uma mistura de chefe tóxico e cachorro malcriado que grita e caga toda hora.
Mas basta uma colega ou amiga engravidar que as redes sociais se enchem de “parabéns” “que coisa linda” “parabéns ao casal”. Nunca vi ninguém comentando “coitada”.
Até porque, os bebês não têm nada a ver com a pessoa que somos ou sobre quem queremos ser. Não são eles os culpados por nossas inseguranças. Tê-los ou não, é uma decisão transformadora, de fato. Mas o que e quem culpamos no mundo por nossas desgraças na maioria das vezes não são as culpadas.
A adolescente na festa não se infiltrou, mas foi infiltrada, trazida. Igual o bebê. E mesmo mais velho, entre um pedaço de bolo com chantilly e uma cerveja, tem dias que eu prefiro mil vezes o bolo.
A adolescência é um momento importantíssimo da vida, e também pode ser um tanto traumático. O que pode fazer com que a gente pense duas vezes em ter filhos baseados de novo num trauma pessoal. Os filhos não são a gente. Eu não sou a minha mãe, muito menos meu pai. E cada ano que passa eu perdoo mais o “eu” dos 16 anos pelos erros e fico mais feliz pelos acertos. E, apesar de imaginar o eu de agora cuidando do eu adolescente, percebo que na verdade é o contrário. Que muita da ingenuidade de antes pode acolher as dores de hoje.
Eu vi um post de uma antiga professora em que seu filho pequeno dizia a ela: Mãe, o agora é o futuro de quando você era criança, né? Isso é uma linda percepção de tempo, e se você ouviu o episódio 1, sabe um pouco das minhas questões com tempo. Afinal, eu vivo o futuro do eu adolescente, ao mesmo tempo que vivo o presente e o passado do eu daqui 10 anos.
Provavelmente, toda essa minha questão com a adolescência seja a compreensão que cada vez mais estou distante dela. Meu problema no final das contas não são festas com ou sem adolescentes, mas a estranheza de sentir que hoje eu sou outra pessoa. Essas vivências dão cada vez mais espaço a certas memórias e vão dando lugar as novas.
Eu tô ficando mais careta, talvez. O bom disso, é descobrir que ser careta as vezes é legal, ou não. Fica a seu critério.
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