#1 A CRISE DOS VINTE E O SE VIRA NOS TRINTA
Atualizado: 4 de ago. de 2021
Este é o primeiro episódio/texto do Caixa de Sapato! Algumas das crises que vem permeando a minha quarentena e outras percepções do tempo deram vida ao podcast e a este site. E você? Quais as suas crises dos vinte? Boa leitura!

Acho que nada melhor do que começar um podcast novo (mais um entre um milhão), do que me presentando. Então: Olá, eu sou .... quer saber? Deixa pra lá.
Não tem acontecido nada. Na realidade parece que não tá acontecendo nada. Afinal, não está acontecendo o que eu gostaria que de fato estivesse acontecendo e que nesse momento seria um emprego estável, fixo e no mínimo algo na minha área. Mas também poderia ser uma coisa do tipo estar na praia. Eu amo praia. Estar fazendo esse podcast já é alguma coisa. E para uma coisa acontecer precisa vir algo antes, qualquer coisa que seja. Para acontecer alguma coisa, a gente primeiro precisa nascer e esse é o maior acontecimento para qualquer pessoa, a sua própria existência. Essa consciência de si mesmo. O olhar no espelho e encontrar a própria cara todos os dias. De carregar o corpo 24 horas, para lá e para cá, deitado, sentado ou em pé. Por isso a gente cansa de si mesmo. É tempo demais, coisa demais pra fazer, pra pensar. É por isso que a gente cuida do corpo ou pelo menos tenta. Lava ele, alimenta, leva no médico quando está doente, faz exercício. Mas as vezes a gente também se desgasta, se maltrata. E a mente continua lá, ligadona, pensando em si mesmo e num monte de outras coisas. Esse corpo é meu, e vai ficar comigo até a morte. Há quem diga que até mais.
Ultimamente tenho achado minha cara mais velha. Eu tenho vinte e poucos anos. Não vou entrar em detalhes. Até porque tudo o que for de muito subjetivo nesse texto é proposital pela falta de certeza nas coisas. Tudo pode mudar. E pode mudar rápido. Quer dizer, eu tô percebendo que minha cara tá mudando e que algumas coisas não têm mudado no ritmo dela. De certo, muitas coisas já mudaram.
A cada dia que passa tenho sentido sensações novas. E não, não necessariamente boas ou ruins. São só... sensações. Algumas delas são preocupações com o tempo. Não com o tempo clima, o tempo tempo mesmo, o cronológico.
Primeiro que ele tá passando e eu ainda não conquistei algumas coisas que, na minha opinião, já deveriam ter rolado. Mas na realidade, eu mesmo fico na dúvida que coisas são essas. Porque quando a gente para pra pensar na vida, algumas coisas meio que perdem o sentido, e só fazem sentindo mesmo em rápidos relances ou em storys no Instagram.
Cada dia que passa é um dia a menos da juventude. E vale ressaltar que eu acho que essa ideia de juventude é bem abstrata e, de fato, se é jovem por muitos e muitos anos. Ainda mais se a gente considerar a juventude um estado de espírito. 50 anos é jovem, por que não seria? Acho que me refiro a uma coisa que se tem quando se está no auge dessa juventude mais ingênua e livre. Meio ali na adolescência e pós adolescência. Tô entrando na fase da juventude que você não entende mais algumas coisas de tecnologia, por exemplo. Daí fica a cargo do primo mais novo. Fico vendo vídeo de casa e decoração e morro de rir com vídeos de bebês e fico pensando quando tiver os MEUS bebês. E isso dá um puta medo. Se você não pensa nos seus bebês provavelmente você pensa em não tê-los, então em alguma coisa você está pensando.
É como se esse dia nunca fosse chegar. O dia em que a gente chega aos vinte e poucos, de pensar de verdade em bebês. Digo, até alguns anos atrás, eu nunca pensei que fosse chegar tão rápido aos vinte e tantos. Quando tinha oito achava que ter dezoito era o auge. Maturidade, festas, casa, carro. Pobre de mim.
O bom é que percebo que os trinta, quarenta, cinquenta são idades que ainda tem coisa para danar. Não parei para pensar muito nos sessenta em diante. Tem pessoas que dizem que são jovens com alma velha. Cara, para com isso, se liga. Não bota a culpa da sua preguiça e cansaço na velhice.
Eu tenho meio que recusado o tempo. Essa pandemia tem me feito pensar demais nisso. Recuso porque me é permitido nesse campo de abstração quase compulsória que me encontro. Depois de meses dentro de um quarto, meio que ele se tornou um mundinho alternativo. Esse não controle da situação temporal, a chegada dos vinte e poucos anos, me fez perceber que o tempo passa, as coisas chegam, e daqui a pouco você não vai mais ser o mais novo do rolê. Estão chegando os novos jovens. E manjando de muita coisa que na minha idade nem imaginava.
Nesse meu mundinho alternativo mudo meus móveis de lugar, jogo meus livros no chão, olho no espelho e sou o maior dos ditadores contra mim mesmo. E me dou a sentença de morte dia sim dia não. Grito em voz inaudível tudo o que mais detesto em mim. Depois, numa resposta quase saudável, me recomponho e, por pena, meio que por carinho também, talvez consideração, reconheço algumas qualidades e tomo para mim uma gota de otimismo. Um belíssimo drama.
Bebo um gole d´água. Abro o Instagram e de novo me arrependo. Mais alguém passou no mestrado, viajou, beijou o namorado ou namorada, faz uma fala militante perfeita. Inclusive, acabei de ler um currículo ótimo no Linkedin. 24 anos. Graduado, curso de extensão, fala línguas, ministra palestras, faz acontecer, abriu seu negócio. Microempresa. Poxa vida, microempresa. E a esta altura quem sou eu? E quem é essa pessoa de verdade? Mas de verdade mesmo? Você gosta do quê? É criativo? É bom no que faz? Sabe editar vídeo? Já me fizeram essas perguntas e eu fiquei numa fossa por uns três dias. Será que deveria me enumerar também?
Tenho notado que as coisas mais primitivas são as mais deliciosas. Correr, comer, cagar, dormir, imaginar... imaginar no sentido mais literal e menos complexo do que se possa parecer, tipo imaginar absoluta e qualquer coisa. Tipo estar numa viagem, ficando com um crush. E eu amo imaginar que a palavra crush daqui uns 20 anos vai ser o novo “nossa que pitel, ou ele é um pão”. Ou, por ser uma palavra em inglês, talvez fique no nosso vocabulário para sempre. É uma boa palavra. Mas voltando ao assunto sobre o ciclo humano...Que delícia. É tão simples... não preciso nem por isso no currículo de tão banal, de tão perfeito que é o ciclo humano. E olha que dormir e cagar é o que eu faço de melhor. Em alguns dias da semana rola duas vezes ao dia e vai que vai que é uma beleza. É exatamente o que os animais fazem quando eles não estão tentando sobreviver das desgraças do ser humano. Até imaginar. Pois é, imaginar. Os mamíferos são ótimos nisso. Sonhar. Mesmo que muitas vezes eu acorde de um sonho em que me lembro por pouco tempo, mas aí me sinto mal, com um peso no estômago, uma culpa, uma preocupação que não sei de onde. Mas basta me levantar. Basta não olhar para o celular para fugir dessa inveja alienada, quase rasa. Basta só dizer basta e ir caminhar. Sentar. Comer. Cagar. Imaginar. Mas o basta dura pouco e volto de novo meus olhos para a tela do celular. Isso não é justo meu deus. Não é. Que ação é essa da minha cabeça? Que me deixa feliz e triste pelo fulano que eu não falo há anos e sei de tanta coisa pelo perfil desorganizado. Sei inclusive de problemas de saúde mental e álcool que não estão no tal perfil. No fim das contas nem gosto tanto dessa pessoa. Nem é nada pessoal. A afetividade é construída com presença, o resto é o papo de Platão. Inclusive dizer que é papo de Platão é papo de Platão, do platônico. Tudo diferente disso é... diferente. Não sei que nome dar. Enquanto isso, deixo o perfil lá, vira e mexe olho um story. E... é sobre isso. Sobre isso o que? É sobre isso.
Sou um millenial médio, meio merda isso né? Descobri esses dias que não sou um prodígio porque já passei dessa fase. Se não rolou até agora não vai rolar mais. E tá tudo bem, é só uma constatação. Fico imaginando se os hippies dos anos 60 também pensavam que eles eram um pouco merda. Ou os adolescentes do início dos anos 2000 também pensavam a mesma coisa. Acho que todo mundo pensa por que, afinal, todo mundo é um pouco. E isso é maravilhoso porque tirando as 10 pessoas mais geniais que nascem por geração tem as outras 7 bilhões aí fazendo coisa pra caramba, sonhando, amando, lutando para viver, para tornar esse mundo um lugar mais legal pra mim pra você e pra galera que vai chegar. E errar. Afinal de contas, a gente erra. A gente deseja. A gente é isso que a gente é, em dias felizes e outros infelizes.
Meus desejos vão além do que o tempo dá conta, por isso eu odeio o tempo. E no auge dos meu vinte e poucos anos eu nunca desejei tanto voltar a ter 16 anos. Reviver a liberdade de fazer menos escolhas. De ser o centro das atenções por tão pouco, pois o ouro do século XXI é a juventude. As clínicas de Botox que o digam.
Ser adolescente é ter um momento de viver a utopia com elegância. Ser jovem assim, é quase um elogio. Com 17 anos eu participei do Encontro Nacional de Educação. Uma professora estava fazendo um discurso e lembro dela falando do orgulho de ver pessoas tão jovens participando e olhou para mim com os olhos marejados. Eu juro que ela falou olhando para mim com olhos marejando e eu só tava sentado. Quer dizer, é justa a emoção dela e toda a história e experiência que ela carrega. Mas e seu eu fosse uma pessoa péssima? Ela olhou para mim e eu percebi que ela estava falando comigo. Ou seja, só o fato de ser adolescente fez ela olhar para mim com certa emoção. Sem nem me conhecer. E que fique bem claro que isso não é uma crítica. É uma percepção de que a falta de experiência, a ingenuidade, ser jovem mesmo faz as pessoas te olharem pelo o que você pode vir a ser, pelas possibilidades do mundo, mesmo nas situações mais críticas. A emoção daquela professora não era comigo pessoalmente, mas pelo o que eu simbolizava. A juventude que ela se referia era a esperança genuína, é a utopia das possibilidades intrínseca da adolescência, em que a gente se cobra demais e sonha mais ainda.
Ou seja, chegar aos vinte e poucos e estar em determinados lugares pode ser trivial ou aplaudível. Mas estar nesses mesmos lugares aos 16 é elogiável.
Eu fui um adolescente feliz. Eu tive esse privilégio. O lance é que eu olho para minhas fotos e não me reconheço. Porque aquela pessoa já não sou mais eu. O tempo fez isso. O mundo fez isso. Eu fiz isso. E esse tempo chegou. Eu me reconheço com as fotos de agora. Daqui a dez anos, não mais. Faz parte. E tem duas semanas que eu notei isso. E por favor, não me julgue pelo possível atraso. É coisas demais para uma pandemia.
E o que importa se eu só fizer mestrado aos 40? Doutorado aos 60? E se eu morrer aos 35? Não terei sequer feito nenhum dos dois. A minha maior preocupação deveria viver. Quer dizer, cuidar de mim para viver muito. Se eu comer, dormir, cagar, correr e imaginar direitinho pode ser que eu tenha uma vida longa e possa fazer muita coisa, conhecer muita gente, ler muitos livros e me apaixonar de novo. E a gente vai se virando nos 30 porque apesar de sentir falta dos 16, eu não voltaria no tempo porque eu gosto de tomar uma cerveja até tarde, conversar sobre a vida que tenho hoje e perceber que há certa alegria no tempo.
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