#3 – Doença Peter Pan
Atualizado: 20 de mai. de 2021
A infância é protagonista deste ensaio. Sem grandes pretensões, a memória costurou esse texto, assim como outros que virão. Viva a infância!

Ser criança é carregar a doçura contínua do lúdico. Se no teatro, por vezes consigo sentir essa mesma doçura, na infância o doce é a própria boca. Os olhos, as mãos e os pés que trabalham constantemente construindo imagens concretas através do mundo banal dos adultos, se conectam como imãs. Como se tivéssemos tentáculos, envolvemos com a imaginação o máximo de informações ao redor, reconstituindo e absorvendo em aprendizagem a nossa importante fonte de alimentação, além daquela que vai no prato, a comida que alimenta a alma.
As coisas, na infância, têm vida própria, tem cheiro, tem cor, tem fala e tem memória. Vivo me perguntando quais os critérios do nosso cérebro ao escolher determinadas lembranças ao invés de outras. Que tribunal adverte, julga, convoca e condena as alegrias, medos e traumas que carregaremos por grande parte da vida.
Há quem diga que gostaria de tomar uma poção do esquecimento, que por dores insuportáveis, o melhor remédio seria esquecer. Eu gostaria de tomar uma poção da lembrança. Ou melhor, entrar numa máquina de tempo para me espiar criança e ver, do lado de fora, como eu brincava, quais as perguntas fazia, como organizava os amigos na hora corre-corre, contar quantas vezes desci a ladeira da rua de bicicleta. Nada disso eu me lembro. Mas me recordo de tantas outras coisas.
Apesar dos machucados e lamentos, acredito que quando criança, lidamos com tudo como um programa de TV, em que se muda de canal, que se altera o volume ou se desliga. Assim como numa pintura, é possível sempre jogar mais tinta por cima, até o desenho debaixo desaparecer ou tomar uma forma tão diferente que nunca mais se saberá qual sua verdadeira forma.
Ser criança é o único momento da vida que podemos ser mais de uma coisa ao mesmo tempo. Quando me fantasiava de homem aranha, eu era o homem aranha, ao mesmo tempo que eu era eu. No teatro a gente atua, na infância a gente é. Hoje, com mais de vinte anos, já tentei ser outras coisas, mas não dá. Simplesmente não dá. Isso pode ter muitos nomes: mentira, segredo, refúgio. Mas é como andar com espinhos no meio do pé. Uma hora cansa, e apesar do fatídico costume, o espinho em si não some.
Tem alguma válvula que a gente para de ser criança. Tenho certeza de que isso aconteceu de um dia para o outro, enquanto eu dormia. De repente eu não tinha mais a minha infância. Como num transe, a gente acorda, olha ao redor e reconhece que não quer mais brincar. Que a ludicidade está no outro. Que a boca do outro me chama, que a voz e o jeito de andar me trazem o doce amargo do desejo.
De repente, o jogo de julgar e fugir dos julgamentos se tornam oficiais para sobreviver no pequeno universo paralelo que é a escola. Eu sei que eu não era totalmente eu na escola. Ninguém é. Certo dia, uma amiga notou que estava mexendo os lábios enquanto murmurava coisas para mim mesmo. Ela riu, achou estranho. Eu mesmo, na hora, achei estranho alguém notar uma coisa como aquela. No fim das contas eu só estava falando comigo, algo que considerava completamente normal dentro de casa. Ali eu entendi, um pouco tarde, que algumas manias a gente não deixa os outros verem. Que tem certas manias que a gente guarda pra si, que fazem parte de um pacto social entre o meu alter e meu ego. É mais fácil, é melhor assim. Ao mesmo tempo, quando cortavam meu cabelo curto demais, o topo da cabeça ficava com fios espetados, e eu usava gel para abaixá-los. Usava gel nessa única parte da cabeça. Enquanto isso, algumas meninas colocavam papel higiênico nos sutiãs e outros meninos mentiam sobre o tamanho de seus pênis ou sobre serem ou não virgens. As manias, as mentiras e os segredos se tornam cotidianos. Mas há grande parte de verdade também. Quando me sentava para comer a merenda com meus amigos, ali eu sentia verdade, porque nada é mais sincero que compartilhar uma refeição. Afinal, todo mundo come, todo mundo precisa se alimentar. A consagração é oferecida através do pão e do vinho, do corpo e sangue de Cristo. As festas são regadas a comida, e mesmo quando se é mais miserável, de novo, tenta-se compartilhar qualquer coisa.
Me recordo de ver as imagens de Cristo, seminu, triste, com sangue escorrendo pela lateral do rosto e nas palmas das mãos. Eu não sabia o porquê, mas aquela imagem me fazia ficar em silêncio. A igreja em si, era um lugar muito silencioso. A ponto de eu não ter qualquer coragem de soltar um grito, ou falar alto. Acompanhava as pinturas que contavam a história de Jesus. As pinturas nas paredes, assim como nas cavernas, imprimiam uma história. Como um filme, contado frame a frame, mostrava o sofrimento de um homem que aparentemente todos amavam, porque assim tinha que ser, porque fizera um sacrifício pela humanidade e porque era filho de Deus. As imagens de tortura passavam na TV mais de uma vez por ano: chicotes, sangue, dor, crucificação. Isso as crianças podiam ver, era quase necessário para compreender por que amar Jesus. Quantos Jesus não há no mundo? E se Ele tivesse fugido? Seriamos isentos de amá-lo? Qual seria o novo curso da história? Criança, eu aceitara amar Jesus na mesma rapidez que amava meu peixe laranja que brincava de vender. Eu sentia respeito. E pena. Com o passar dos anos as imagens deixaram de me impressionar, mas ainda me causa demasiada curiosidade.
São nesses poucos momentos que me vejo na infância. Quando algum perfume, música ou trecho de algum filme dessa fase da vida aparece, sou tomado, por alguns segundos, e retorno ao eu criança. Mas passa tão rápido, que fico tentando me reconectar a sensação anterior. Como num shot, sinto o gosto doce de novo, e depois passa, ficando só o bafo quente desse teletransporte.
Outra imagem que me causa curiosidade é imaginar meus pais criança. Especialmente minha mãe. Até certo momento da infância a gente acha que todo adulto nasceu adulto, e que por consequência todo velho sempre foi velho. E que o desejo de crescer, é por não saber que tudo passará mais rápido do que se imagina. Que a infância não dura o tempo que a gente pensa.
Aos vinte e poucos anos, com a certeza absoluta de que o tempo passa para todos, começo a sentir uma breve inveja dos mais novos ao mesmo tempo de deter a frágil consciência que se não tivesse vivido os anos que me foram dados, eu nem sequer estaria escrevendo esse texto. E você nem sequer estaria ouvindo isso.
Escrever é como uma caixa de sapato em que a gente guarda as lembranças, algumas menos importantes, mas não a ponto de jogá-las fora.
A infância deveria ser eternamente consagrada e compartilhada como pão e vinho. E no constante medo de estar perdendo tempo, procurando ocupá-lo com o maior número de coisas, cada vez retorno mais a infância, na qual o medo era a possibilidade de não crescer nunca. Uma doença Peter Pan.
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