#4 Área 2x2 ou Os últimos dias de alguém que poderia ser qualquer um
Quase todos os dias o homem se senta num banquinho na área de serviço 2 por 2. A área é tão pequena que só cabe uma pessoa. Entre vassouras penduradas, espadas de São Jorge e um tanque de concreto, ele se senta num dos poucos lugares da casa onde bate sol. O melhor sol do dia. Aquele sol brando da manhã que aquece o corpo ainda quando bate uma brisa gélida. Ali, acontece uma breve equação, entre calor do sol e a brisa ligeiramente fria. E é bom.
Nesse espaço minúsculo, onde não cabe mais nada além de uma pessoa, é perfeito porque não precisava caber mais ninguém.
Não era possível esticar muito bem as pernas, mas se virasse de lado, ocupando um pouquinho do espaço da cozinha, dava para fazê-lo. Também não cabia uma cadeira com encosto, pois senão as canelas e os joelhos se espremiam na parede. O melhor era o banquinho, que nem muito alto, nem muito baixo, dava conta de descansar e esperar o corpo despertar nas primeiras horas do dia.
O sol era quase como uma mão que acaricia a pele de quem ama. Nem fazia suar a testa, tamanha sua leveza. O silêncio, tão característico daqueles primeiros momentos, saudava o respeito e a compreensão que pouca existia no mundo mergulhado em ruídos.
E ali, sentado no banquinho, num silêncio que duraria pouco, com a luz solar banhando a pele, o mundo por alguns minutos se tornava um pouco menos ruim. A verdade é que quase nunca tivera tempo de sentar-se e sentir o sol. Nem sequer sabia se de fato cabia alguém na área de serviço tão ocupada por plantas e bugigangas domésticas.
O espaço, não muito bonito e um tanto apertado, cabia um homem, um banquinho, o sol e o mundo.
Ali, histórias das mais diversas aconteciam. Memórias das mais longínquas, daquelas que a gente até dúvida se é fato ou imaginação, tomavam forma e escapavam em sorrisos pequenos ou cenhos franzidos.
Dentro do espaço, o homem toda a manhã encontrava a paz que lhe faltava há tantos meses. A televisão e a internet quase tornaram-se monotemáticas. Todos os dias eram como terça-feira: não é a temida segunda que inicia as agonias de viver na cidade e ao mesmo tempo está longe de domingo. No país há muito tempo não era domingo.
Na solidão que lhe havia restado, admirou-se com a qualidade de diálogos que o sol lhe proporcionava. E descobriu em si mesmo um homem que cabia numa área de serviço e que tinha a capacidade de ouvir as vozes dentro de si, que ficaram contentes de serem ouvidas, mesmo que o homem as vezes ficasse triste.
À medida que a Terra naturalmente rodava e o sol ia se afastando, sabia-se que estava próximo a hora do almoço. Como um apaixonado, o homem não queria que o sol fosse embora, mas se insistisse em ficar, a luz tornava-se forte e o calor um tanto desconfortável que suava a testa e machucava os olhos. Então era melhor que deixa-o ir, para que no outro dia voltasse leve e bom.
De certo modo, passou a entender melhor os gatos que se jogam sobre o piso tomando-lhes o sol em silêncio dando curtos ronronados, mudando de lugar à medida que a luz se movimentava. O sol abastece, como um carregador natural. Alimenta a alma, como que por algum motivo um dia de chuva tende a esvaziar.
A luz aquece provocando as células a dançarem. Talvez por isso a gente sinta um pouco de esperança. Só dança os que tem esperança.
Mas um dia, o sol não voltou. As nuvens tomaram conta do céu e não permitiram a luz sair e tocar a pele do homem. Este, por sua vez, sentiu muita falta. As vozes dentro dele, retornaram, porém mais agoniadas e franzidas. Sua cabeça naquele dia pesou mais que o resto do seu corpo. Seu peito levemente estufado carregava dentro dele um bolor que precisava ser posto para fora.
Sentiu-se abandonado pelo amor. A garoa fina trazia-lhe lembranças tristes. O banquinho, por algum motivo, tornara-se mais desconfortável, a área menor e mais fria. O tempo passava mais arrastado e não tinha mais vontade de dançar.
Depois de um tempo contemplando a chuva fina, se esforçou para lembrar o corpo das lembranças que o sol lhe proporcionava. Sentiu certo prazer, não pelas lembranças, mas pela certeza o que o sol voltaria em alguma próxima manhã.
Por conta do frio, vestiu um moletom e um blusão. Há tempos não via esta roupa, presente de uma pessoa querida. Ao mesmo tempo que o aconchego do tecido lhe lembrava infância. O cheiro do café tomava o ambiente com mais força, como se tentasse lutar contra o ar mais denso. O cheiro bom do café.
O fim do mundo estava próximo. O apocalipse já estava marcado no despertador do celular. O planeta esperava aflito por esse momento. Por isso, desligara todos os aparelhos. Fecharia os olhos enquanto a explosão invadiria o planeta, golpeado por um meteoro. Gostaria de morrer sentado no banquinho com a luz do sol no rosto. Gostaria de morrer dançando com o amor de sua vida. E após um ruído único e abafado, pudesse surgir em outra dimensão, compreendendo coisas que os séculos não detiveram as respostas.
Lembrou-se, uma lembrança triste e sincera, de seu último amor. Apesar de há muitos anos sem vê-la, havia algo dentro dele que continuava lá. Como uma dor de dente que vira e mexe volta a latejar e de repente some de novo.
Ela carregava uma beleza genuína, tinha boas palavras e conversava por horas a fio, sempre com algo a dizer. Tinha uma pele brilhante e cheirosa. Um dia, foi-se embora. Num nervosismo repentino e doído. Disse que precisava ir e foi.
Algum tempo depois, apareceu com outra pessoa. E ela, sua amada, ou ele seu amado (o homem não se importava) havia resgatado novamente um sorriso que, apesar de contido, estava ali.
Perguntou-se o que nele faltava a ponto dela não conseguir amá-lo e dirigir-se a outro tão rápido. O que deixara de fazer para que ela não aceitasse sua ajuda, seu ombro, seu amor e atenção. O que nele faltava que no próprio espaço vazio não era suficiente para ela? Sendo que a havia entregado todos os seus espaços.
O que o homem esquecera de se perguntar era o que lhe excedia. O que de muito, fora demais.
O que um homem de vinte e poucos anos tinha de muito que de tão sufocante tornou-se insuportável? Mas como sufocante, se dera todos os espaços que tinha? Era mesmo homem? Ou apenas um menino? É possível brotar uma resposta verdadeiramente adulta na boca de alguém com vinte e poucos anos? Alguma certeza que, de tão fundante e visceral, não é dita pelas ideias, mas pelo âmago do estomago? A única verdade era a fome que passara nos primeiros anos de vida, herdada dos pais, dos avós e tataravós.
Alguém sabe algo da vida aos vinte e tantos a ponto de nunca, nunca magoar ninguém? Não há bola de cristal para os burros. Não há inteligência que seja medida com a dor do abandono.
A pessoa que vai, leva com ela resquícios de nosso ego e de nossa possibilidade de alimentar ideias e expectativas. Ao homem, sobra-lhe o abandono, mas também restara todas as lamúrias que terá que carregar sozinho, de lidar sem outras distrações. E principalmente restara tudo de si.
Se o outro vai, tem você que fica. Não há excessos, espaços, faltas que justifique qualquer ida, ou pelo contrário, que justifique motivos para ficar.
Ao homem, cabe-lhe apenas o banquinho, que lhe pertence. Aos demais, todos podem ir, casar e amar outros e outras, pois pessoas pertencem umas as outras. Assim como a escrita, que desenhada no papel, ou digitada, não lhe pertence. Ou a poesia, ao declamada, é levada junto do ar.
Quando o outro vai embora, ele não está lhe deixando, mas indo buscar a si mesmo. Nada tem a ver contigo. E se a pergunta continuar do porquê o outro não busca o que procura em ti, talvez seja a hora de você tentar encontrar um pouco de si mesmo.
Espantou os pensamentos. O homem estava cansado.
A melancolia não chegou atrasada. Veio no momento certo. Os raios de sol, leves e quentes, tocou o rosto do homem como que se despedindo. Lembrava pela última vez as pessoas que foram embora de sua vida, ou mesmo as que permaneciam, mas numa perene ausência. Sentado no banquinho da área 2x2, depois de molhar as plantas e tomar um café, aguardou o inevitável.
Tampouco o fim dos tempos tardou. Um áspero zunido, seguido de um estrondo abafado, tornou silêncio os novos milênios da Terra, até que uma próxima espécie aprendesse a utilizar os indicadores e polegares e fizesse a primeira pergunta: por quê?




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